Português (Brasil)

Energia eólica, data centers e IA: por que o Rio Grande do Sul pode viver um ciclo histórico de investimentos

Energia eólica, data centers e IA: por que o Rio Grande do Sul pode viver um ciclo histórico de investimentos

Nilo Quaresma Neto, CEO da EPCOR Energia, afirma que Estado reúne condições únicas para atrair até R$ 60 bilhões em investimentos privados, impulsionar data centers, inteligência artificial, hidrogênio de baixo carbono e uma nova indústria de energia limpa.

Compartilhe este conteúdo:

Em entrevista exclusiva ao Conecta News, CEO da EPCOR Energia diz que o Rio Grande do Sul reúne condições únicas para se tornar referência nacional em energia eólica, data centers, inteligência artificial, hidrogênio de baixo carbono e armazenamento de energia, impulsionando um novo ciclo de desenvolvimento econômico.

ENTREVISTA ESPECIAL | Nilo Quaresma Neto

“O Rio Grande do Sul pode liderar o novo ciclo da energia brasileira e se transformar em um dos maiores polos de infraestrutura digital da América Latina”.

O setor elétrico brasileiro atravessa uma das maiores transformações de sua história. Depois de duas décadas marcadas pela forte expansão dos parques eólicos no Nordeste, o país entra em uma nova fase, em que a disponibilidade de infraestrutura de transmissão passa a ser tão importante quanto a qualidade dos recursos naturais.

Nos últimos anos, o aumento dos episódios de curtailment, quando usinas renováveis são obrigadas a reduzir sua geração devido às limitações da rede elétrica, mudou a lógica dos investimentos. A abundância de vento já não é suficiente. Agora, investidores procuram regiões capazes de oferecer segurança energética, capacidade de escoamento da produção, estabilidade regulatória e proximidade dos grandes centros consumidores.

É nesse contexto que o Rio Grande do Sul desponta como uma das regiões mais promissoras do Brasil.

Com potencial superior a 30 GW em energia eólica, expansão acelerada da geração solar, crescimento do mercado livre de energia, chegada do Cabo Malbec, desenvolvimento da indústria de armazenamento por baterias (BESS) e interesse crescente de empresas globais de tecnologia, o Estado reúne ativos capazes de posicioná-lo entre os principais destinos de investimentos em infraestrutura da América Latina.

Para analisar esse novo cenário, o Conecta News entrevistou Nilo Quaresma Neto, CEO da EPCOR Energia, diretor de Energia da APTEL (Associação das Empresas Proprietárias de Infraestrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações) e um dos maiores especialistas brasileiros em desenvolvimento de projetos renováveis.

Com mais de três décadas de atuação no setor elétrico e participação direta na estruturação de mais de 6 GW em projetos de geração renovável, Quaresma acompanha desde os primeiros parques eólicos brasileiros a evolução da matriz energética nacional.

Nesta entrevista exclusiva, ele analisa por que o Rio Grande do Sul vive uma oportunidade histórica, quais decisões deverão ser tomadas pelos governos a partir de 2027 e como a energia poderá se tornar o principal vetor do desenvolvimento econômico brasileiro na próxima década.

Conecta News: O setor elétrico brasileiro mudou muito nos últimos anos. O que diferencia o momento atual dos ciclos anteriores?

Nilo Quaresma: O Brasil vive uma mudança estrutural. Durante muitos anos o principal desafio era ampliar a oferta de geração.

Hoje, em diversas regiões, especialmente no Nordeste, a limitação deixou de ser a disponibilidade dos recursos naturais e passou a ser a capacidade da infraestrutura elétrica.

Os episódios de curtailment demonstram exatamente isso. Temos vento. Temos usinas. Temos investidores.

Mas muitas vezes falta capacidade para transportar essa energia até os centros consumidores.

Esse cenário altera completamente o mapa dos investimentos.

Os empreendedores passam a buscar regiões onde exista maior equilíbrio entre geração, transmissão e consumo.

É justamente aí que o Rio Grande do Sul ganha protagonismo.

Conecta News: O senhor costuma afirmar que o Rio Grande do Sul vive uma "janela de oportunidade". Por quê?

Nilo Quaresma: Porque dificilmente veremos uma combinação tão favorável novamente. O Estado reúne ativos estratégicos extremamente raros.

  • Primeiro, possui um potencial eólico superior a 30 GW.
  • Segundo, dispõe de áreas adequadas para expansão.
  • Terceiro, está próximo dos maiores centros consumidores do Sul e Sudeste.
  • Quarto, apresenta melhores condições para expansão da transmissão quando comparado às regiões atualmente mais congestionadas.

Além disso, o Rio Grande do Sul passa a integrar uma infraestrutura internacional de conectividade extremamente relevante com o Cabo Malbec.

Essa combinação interessa não apenas ao setor elétrico. Ela interessa às empresas globais de tecnologia, aos operadores de data centers, à indústria do hidrogênio de baixo carbono e aos investidores internacionais.

Conecta News: O senhor acredita que o Rio Grande do Sul poderá substituir parte da expansão que antes ocorria no Nordeste?

Nilo Quaresma: Não se trata de substituir. O Nordeste continuará sendo extremamente importante.

O que está acontecendo é uma diversificação geográfica dos investimentos. Os investidores precisam reduzir riscos.

Hoje eles analisam fatores como disponibilidade de conexão, confiabilidade da rede, tempo de licenciamento e estabilidade operacional.

O Rio Grande do Sul passa a oferecer vantagens competitivas muito relevantes. Isso pode acelerar significativamente a implantação de novos empreendimentos ao longo da próxima década.

Conecta News: Quanto essa oportunidade representa em investimentos?

Nilo Quaresma: Os números impressionam. Hoje, cada megawatt instalado representa aproximadamente R$ 6 milhões em investimentos.

Um parque de 100 MW movimenta cerca de R$ 600 milhões. Projetos de 300 MW superam R$ 1,8 bilhão. Complexos de 500 MW ultrapassam R$ 3 bilhões.

Se o Estado desenvolver entre 5 GW e 10 GW até meados da próxima década, estamos falando de investimentos privados entre R$ 30 bilhões e R$ 60 bilhões apenas na implantação dos parques.

Quando adicionamos fábricas, fornecedores, transmissão, serviços especializados, centros logísticos e novas indústrias consumidoras de energia, esse impacto econômico torna-se muito maior.

Conecta News: Qual deverá ser o papel do próximo governador do Rio Grande do Sul?

Nilo Quaresma: A energia precisa deixar de ser tratada apenas como um tema do setor elétrico. Ela deve ser encarada como política de desenvolvimento econômico.

Isso significa integrar diferentes áreas do governo.

  • Infraestrutura;
  • Indústria;
  • Ciência e Tecnologia;
  • Educação;
  • Desenvolvimento Econômico;
  • Planejamento.

A implantação de parques eólicos gera empregos, arrecadação, renda para produtores rurais, contratação de empresas locais e fortalecimento das cadeias produtivas.

Mas o maior ganho acontece quando essa energia passa a atrair indústrias. É aí que se multiplica o valor agregado.

Conecta News: O senhor costuma defender uma política industrial para o setor. Como ela funcionaria?

Nilo Quaresma: Não basta instalar parques. Precisamos fabricar tecnologia.

O Rio Grande do Sul possui uma indústria metalmecânica extremamente qualificada.

Pode produzir torres, pás, estruturas metálicas, transformadores, componentes elétricos e equipamentos para armazenamento.

Isso gera empregos de maior qualificação e reduz custos logísticos. Além disso, fortalece toda a cadeia produtiva nacional.

Conecta News: A inteligência artificial mudou definitivamente o mercado de energia?

Nilo Quaresma: Sem dúvida. A IA alterou completamente a demanda global por eletricidade.

Grandes data centers consomem centenas de megawatts continuamente. Esses empreendimentos procuram quatro requisitos fundamentais:

  • Energia abundante;
  • Energia renovável;
  • Infraestrutura digital;
  • Segurança regulatória.

O Rio Grande do Sul reúne esses quatro fatores. Isso pode transformar o Estado em um dos maiores polos latino-americanos para infraestrutura digital.

Conecta News: O armazenamento por baterias será decisivo?

Nilo Quaresma: Absolutamente. O armazenamento passa a ser um dos principais pilares do sistema elétrico moderno.

As baterias oferecem flexibilidade, reduzem perdas, aumentam a confiabilidade da rede e permitem melhor aproveitamento das fontes renováveis.

Não há transição energética sem armazenamento. Nos próximos anos veremos investimentos bilionários nesse segmento.

Conecta News: O hidrogênio de baixo carbono continuará sendo uma aposta estratégica?

Nilo Quaresma: Sim. Talvez não na velocidade imaginada há alguns anos. Mas certamente fará parte da matriz industrial brasileira.

O hidrogênio dependerá diretamente da disponibilidade de energia renovável competitiva.

Por isso o desenvolvimento da geração eólica e solar continua sendo absolutamente essencial.

Conecta News: O mercado livre continuará crescendo?

Nilo Quaresma: Sem dúvida. O consumidor busca competitividade. Busca previsibilidade de custos. Busca sustentabilidade.

O mercado livre continuará ampliando sua participação na economia brasileira.

Essa expansão estimula novos investimentos em geração renovável.

Conecta News: Como o senhor imagina o setor elétrico brasileiro em 2035?

Nilo Quaresma: Vejo um sistema muito mais digital. Muito mais descentralizado.

Com forte integração entre geração renovável, armazenamento, inteligência artificial, hidrogênio, veículos elétricos e redes inteligentes.

A energia deixará de ser apenas infraestrutura. Ela será plataforma para toda a economia digital.

Conecta News: Qual mensagem o senhor deixaria para empresários e gestores públicos?

Nilo Quaresma: O Brasil possui uma oportunidade extraordinária. Mas oportunidades têm prazo.

O Rio Grande do Sul reúne hoje condições que poucos lugares do mundo conseguem oferecer simultaneamente.

  • Energia renovável;
  • Infraestrutura elétrica;
  • Conectividade internacional;
  • Base industrial;
  • Capital humano;
  • Universidades.

Se houver planejamento, integração entre setor público e iniciativa privada e segurança regulatória, o Estado poderá liderar um novo ciclo de desenvolvimento econômico baseado em energia limpa, tecnologia e inovação.

Não estaremos apenas produzindo eletricidade. Estaremos construindo uma nova economia.

Análise Conecta News

Mais do que ampliar sua participação na geração de energia renovável, o Rio Grande do Sul pode ocupar uma posição estratégica na reorganização do setor elétrico brasileiro. A convergência entre expansão da transmissão, desenvolvimento da indústria eólica, crescimento dos sistemas de armazenamento, mercado livre de energia, hidrogênio de baixo carbono e instalação de grandes data centers cria um ambiente singular para investimentos de longo prazo.

Na avaliação de Nilo Quaresma Neto, a próxima década será marcada pela integração entre infraestrutura energética e economia digital. Caso consiga transformar seu potencial técnico em políticas públicas consistentes, o Estado poderá deixar de ser apenas um produtor de energia para consolidar-se como um dos principais polos latino-americanos de infraestrutura tecnológica, inteligência artificial e indústria de baixo carbono, inaugurando um novo ciclo de crescimento baseado em inovação, competitividade e sustentabilidade.

Imagem da Galeria Parque eólico no Liroral gaúcho
Imagem da Galeria Nilo Quaresma Neto, CEO da EPCOR Energia
Imagem da Galeria Data center visto por dentro
Imagem da Galeria Projeto Mega data center na região Metropolitana de Porto Alegre
Imagem da Galeria Usina solar no interior do RS
Imagem da Galeria Porto de Rio Grande
Compartilhe este conteúdo:

Na sua experiência, qual é o melhor inversor solar atualmentev?


Voto computado com sucesso!
Na sua experiência, qual é o melhor inversor solar atualmentev?
Total de votos:
"Huawei"
"Solis" "Deye" "Sungrow"
"WEG"
"Growatt"
"GoodWe"
"Outro"