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Biometano no Brasil avança e pode substituir até 60% do gás natural

Biometano no Brasil avança e pode substituir até 60% do gás natural

Com grande oferta de resíduos e interesse empresarial crescente, combustível renovável avança como aposta estratégica da transição energética.

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O biometano começou a ocupar no Brasil um espaço que até pouco tempo era tratado mais como promessa do que como mercado. Produzido a partir de resíduos urbanos, dejetos animais, vinhaça, torta de filtro, esgoto e lixo orgânico, o combustível renovável passou a ser visto por empresas e formuladores de política pública como uma das rotas mais viáveis para reduzir emissões no transporte pesado, diminuir a dependência de combustíveis importados e ampliar a oferta doméstica de gás de baixo carbono. O potencial é expressivo: segundo estimativas citadas pelo Ministério de Minas e Energia, com base em dados da ABiogás, o país tem capacidade teórica para produzir cerca de 120 milhões de metros cúbicos por dia de biometano.

Hoje, porém, o mercado ainda está distante dessa escala. O Brasil produz menos de 2 milhões de metros cúbicos por dia, mas a indústria projeta expansão relevante nos próximos anos. Em estudo recente sobre São Paulo, a ABiogás afirma que apenas o Estado poderia alavancar 6,4 milhões de m³/dia, o equivalente a algo entre 40% e 50% do mercado paulista de distribuição de gás. A tese central do setor é que a oferta pode crescer de forma acelerada à medida que projetos deixem a fase de estruturação e avancem para operação comercial.

A atratividade econômica do biometano aumentou num momento em que o Brasil voltou a mostrar forte dependência externa em derivados fósseis. Em 2025, o país importou 17,3 bilhões de litros de diesel A, alta de 20% sobre o ano anterior, segundo dados reportados por veículos de mercado com base em números oficiais e análise da StoneX. Para defensores do combustível renovável, esse quadro reforça a vulnerabilidade da matriz de transporte a riscos cambiais, logísticos e geopolíticos e abre espaço para alternativas produzidas localmente.

É nesse contexto que o biometano passou a ser apresentado como peça estratégica da transição energética. O combustível pode substituir o gás natural sem necessidade de mudança molecular, o que reduz barreiras de integração à infraestrutura já existente. Também ganhou relevância no transporte pesado. Relatório divulgado pelo MME com base em estudo da EPE afirmou, em julho de 2025, que o biometano pode emitir até 2,5 vezes menos CO2 do que a eletricidade destinada a veículos em determinadas aplicações, considerando a análise de ciclo de vida “do poço à roda”. O mesmo material reforça o papel do combustível na descarbonização de caminhões e ônibus.

O apelo ambiental ajuda a explicar o interesse crescente. Além de aproveitar resíduos que hoje muitas vezes são descartados de forma inadequada, o biometano atua sobre uma molécula especialmente crítica para o clima: o metano. Segundo o MME, o combustível renovável pode reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação com o diesel B15, a depender da biomassa utilizada e da eficiência do processo produtivo. Em um país que gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos por ano e ainda mantém parcela relevante do lixo com destinação inadequada, a captura e o aproveitamento energético do metano passaram a ser vistos não apenas como agenda ambiental, mas como oportunidade industrial.

O mercado também começa a ganhar contornos corporativos mais nítidos. Entre os movimentos recentes, a Orizon vem se posicionando como uma das companhias mais ativas no segmento ao monetizar resíduos urbanos por meio da produção de biometano. Em 2025, a empresa informou expectativa de iniciar a operação da planta de Paulínia, em São Paulo, com capacidade de 222,8 mil m³/dia, e já reportava contratos de fornecimento entre 500 mil e 650 mil m³/dia, com potencial de atingir 1,3 milhão de m³/dia.

Outra frente relevante envolve alianças entre players de infraestrutura, distribuição e gestão de resíduos. A Compass e a Orizon estruturaram joint venture para uma planta de biometano, num movimento que sinalizou a entrada mais coordenada de grupos de energia e gás no setor. Já a Gás Verde vem ampliando presença no mercado a partir de projetos em aterros sanitários e de contratos com consumidores industriais, num modelo que ajuda a dar previsibilidade de demanda a um setor ainda em consolidação.

O avanço do biometano não elimina, contudo, os gargalos. A expansão depende de financiamento, contratos de longo prazo, regulação mais estável e infraestrutura para escoamento e conexão às redes de gás. Também exige coordenação entre setores que tradicionalmente operaram de forma apartada, saneamento, resíduos sólidos, agropecuária, distribuição de gás e transporte. Em outras palavras, o potencial técnico já está razoavelmente mapeado; o desafio agora é transformar disponibilidade de matéria-prima em oferta firme, padronizada e competitiva.

A experiência europeia reforça a percepção de que há espaço para um salto mais ambicioso. Em Portugal, estudo encomendado pela Floene à Roland Berger indicou potencial para que o biometano substitua cerca de 60% do gás hoje distribuído nas redes, com base principalmente em resíduos sólidos urbanos e agropecuária. O contraste com metas ainda consideradas modestas em alguns mercados europeus costuma ser usado pelo setor no Brasil como argumento de que o país, pela escala agroindustrial e pela abundância de resíduos, reúne condições particularmente favoráveis para avançar mais rápido. Nesse ponto, a comparação internacional funciona menos como espelho e mais como alerta: quem estruturar primeiro oferta, logística e mercado pode capturar uma vantagem industrial relevante.

No Brasil, a narrativa do biometano começa, enfim, a mudar de patamar. O combustível deixou de ser apenas um componente da agenda ESG para se aproximar do centro da política energética e industrial. Se conseguir converter potencial em escala, poderá reduzir a dependência do diesel importado, substituir parte relevante do GLP e do gás natural fóssil, estimular cadeias produtivas regionais e transformar passivos ambientais em ativo econômico. O mercado ainda é pequeno, mas o movimento das empresas sugere que a corrida já começou e que, desta vez, ela pode ir bem além do discurso.

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