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Brasil arca com 78% dos custos de Itaipu e paga o dobro pela energia
Postura do Paraguai nas negociações dificulta revisão do Anexo C e perpetua um acordo mais oneroso para o Brasil.
Mesmo sendo responsável pela maior fatia dos custos da usina de Itaipu, o Brasil arcou em 2025 com um preço médio da energia mais de duas vezes superior ao pago pelo Paraguai. Dados oficiais da hidrelétrica binacional revelam um desequilíbrio tarifário que reacende o debate sobre o modelo financeiro adotado nos últimos anos e pressiona o governo brasileiro por uma revisão estrutural das bases do acordo.
Informações divulgadas pela própria Itaipu e divulgadas pelo jornal Valor, mostram que o Brasil respondeu por 78,5% do Custo Unitário dos Serviços de Eletricidade (Cuse) ao longo de 2025, mas teve direito a apenas 64,44% da energia efetivamente gerada. Como consequência, o preço médio pago pelos consumidores brasileiros atingiu US$ 47,35 por megawatt-hora (MWh), enquanto os paraguaios desembolsaram US$ 23,17 por MWh — menos da metade.
Especialistas do setor elétrico apontam que essa distorção é resultado direto das decisões tarifárias adotadas a partir de 2022, quando a diretoria e o conselho da Itaipu optaram por negociar valores fixos para os anos de 2022, 2023 e 2024, em vez de aplicar o critério de custo estritamente previsto no Tratado de Itaipu e em seu Anexo C, que estabelece as bases financeiras da usina binacional.
Na prática, a tarifa foi mantida em US$ 19,28 por quilowatt (kW), quando, segundo cálculos técnicos, poderia ter sido reduzida para cerca de US$ 9 por kW após a amortização da dívida histórica da usina. Essa diferença gerou um custo adicional estimado em US$ 1,2 bilhão por ano, aproximadamente R$ 6,4 bilhões, repassado aos consumidores brasileiros de energia.
Para mitigar parcialmente o impacto, a Itaipu se comprometeu a realizar um aporte extraordinário de US$ 285 milhões em 2026, com o objetivo de manter a tarifa brasileira em US$ 17,66 por kW para os consumidores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Ainda assim, analistas avaliam que a medida não elimina o desequilíbrio estrutural do modelo vigente.
O tema também ganhou dimensão política. O presidente Lula tem defendido publicamente a revisão das bases financeiras de Itaipu, argumentando que a energia da usina deve contribuir para reduzir o custo da eletricidade no país e apoiar o desenvolvimento industrial e social brasileiro. O preseidente do Brasil já sinalizou que considera fundamental alinhar a tarifa à nova realidade financeira da hidrelétrica, após décadas de pagamento da dívida de construção.
Do lado paraguaio, o presidente Santiago Peña tem reiterado que o país busca preservar sua soberania energética e garantir receitas que considera estratégicas para o desenvolvimento nacional. O governo do Paraguai sustenta que qualquer revisão do acordo deve respeitar o Tratado de Itaipu e assegurar benefícios equilibrados entre os dois sócios da usina.
A divergência evidencia o desafio diplomático e técnico que se impõe aos dois países na renegociação do Anexo C, concluída em 2023, mas cujos efeitos práticos continuam em debate. Enquanto o Brasil pressiona por tarifas mais baixas e maior racionalidade econômica, o Paraguai vê na energia de Itaipu uma das principais alavancas de sua política fiscal e de investimentos.
O desfecho dessa discussão será determinante não apenas para os consumidores brasileiros, que seguem pagando uma das tarifas mais elevadas da usina, mas também para o futuro do modelo de governança de um dos maiores empreendimentos hidrelétricos do mundo.

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