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Data centers na Patagônia entram no radar de Milei em plano para transformar energia barata em motor exportador
Presidente Javier Milei projeta boom energético e mineral, aposta em Vaca Muerta e mineração andina e sugere que frio e eletricidade abundante do sul argentino podem atrair infraestrutura global de inteligência artificial.
Neste último domingo (1º/3), em discurso transmitido pela televisão durante a abertura do período legislativo, o presidente Javier Milei apresentou uma narrativa de transformação econômica baseada em recursos naturais, energia abundante e nova infraestrutura industrial.
O tom predominante foi descrito por analistas e pela imprensa como combativo, confrontativo e enérgico, com momentos de entusiasmo ao defender seu projeto econômico. Em uma fala marcada por projeções ambiciosas, o presidente argentino colocou energia e mineração no centro de uma estratégia para ampliar exportações e reposicionar o país nas cadeias globais de produção.
Ao descrever o potencial estratégico do país, Milei afirmou que a Argentina reúne uma combinação rara de recursos naturais, capacidade produtiva e posição geográfica. “Temos os minerais críticos que o Ocidente precisa. Temos energia, gás, petróleo, energia nuclear e energia renovável para abastecer cadeias de produção em escala. Temos capacidade de terra, água e agroindústria para garantir a segurança alimentar no hemisfério. E temos a localização, a ponta sul do continente, com acesso a dois oceanos e presença na Antártica”, declarou o presidente durante a sessão no Congresso.
A estratégia apresentada pelo governo combina a expansão da indústria energética, com destaque para o desenvolvimento de “Vaca Muerta” (uma das maiores formações de petróleo e gás não convencional do mundo, localizada na região da Patagônia argentina, principalmente na província de Neuquén, e também se estendendo por áreas de Río Negro, Mendoza e La Pampa) e o avanço da mineração ao longo da Cordilheira dos Andes. Segundo ele, se o país conseguir garantir estabilidade regulatória e atrair investimentos, poderá transformar seus recursos naturais em uma nova plataforma exportadora.
Nesse contexto, Milei introduziu um elemento pouco habitual em discursos econômicos tradicionais da Argentina: a possibilidade de instalação de data centers na Patagônia. A região reuniria duas vantagens estratégicas, clima frio, que reduz custos de refrigeração, e acesso potencial a energia abundante e barata, fatores considerados decisivos para infraestrutura digital voltada à inteligência artificial.
Energia como base industrial
Para o governo, o fator-chave da estratégia é o custo da energia. “Energia barata é o insumo transversal”, afirmou o presidente, ao defender que a abundância energética pode atrair indústrias intensivas em capital e consumo elétrico.
Entre os setores mencionados estão petroquímica, siderurgia, alumínio, hidrogênio e processamento de minerais críticos, além de infraestrutura tecnológica ligada a computação em nuvem e inteligência artificial. No diagnóstico do governo, a energia poderia funcionar como catalisador de uma nova etapa de industrialização baseada em recursos naturais, com maior valor agregado.
Projeções de exportação
Durante o discurso, Milei afirmou que a Argentina já estaria atravessando “processos virtuosos” na economia, com a energia ocupando posição central. Segundo ele, o país exportou cerca de US$ 80 bilhões no último ano e o complexo energético sozinho poderia alcançar cerca de US$ 50 bilhões em exportações anuais dentro de cinco anos.
Grande parte dessa expansão depende do desenvolvimento da produção de petróleo e gás não convencional em Vaca Muerta, na província de Neuquén. O presidente afirmou que o impacto territorial dessa atividade poderá transformar o chamado “Grande Neuquén” em uma das principais metrópoles argentinas, com crescimento populacional e industrial associado à cadeia energética.
Aposta na mineração
O segundo pilar da estratégia é a mineração. Milei afirmou que o setor deverá se expandir ao longo de toda a Cordilheira, com foco em minerais críticos como cobre e lítio, insumos essenciais para baterias, eletrificação e novas tecnologias.
Segundo o presidente, a atividade pode gerar “centenas de milhares” de empregos. Ele citou a experiência de Chile como referência para o potencial do setor e sugeriu que um modelo semelhante poderia levar a mineração argentina a gerar até 1 milhão de empregos privados.
Incentivos ao investimento
Para sustentar esse ciclo de expansão, o governo aposta na ampliação do Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI), mecanismo criado para oferecer estabilidade regulatória e benefícios fiscais a projetos de grande porte.
De acordo com Milei, cerca de US$ 25 bilhões em investimentos já teriam sido aprovados no âmbito do regime e estariam em execução. Outros US$ 45 bilhões em propostas estariam em análise. No total, seriam 32 projetos distribuídos por 11 províncias, com potencial de gerar mais de 60 mil empregos diretos e indiretos.
Críticas a custos da infraestrutura
O presidente também dedicou parte do discurso a criticar estruturas de custos da indústria energética que, segundo ele, teriam sido infladas por proteção regulatória. Ao mencionar o mercado de tubos de aço utilizados na exploração de petróleo e gás, Milei questionou se seria “normal” pagar cerca de US$ 4 mil por tonelada quando o preço internacional estaria próximo de US$ 1.400.
Sem mencionar diretamente empresas, ele fez referência indireta ao empresário Paolo Rocca, criticando o que descreveu como um sistema de proteção que teria encarecido projetos energéticos no país.
Energia, mineração e tecnologia
Na visão apresentada pelo governo, a combinação de energia abundante, mineração de minerais críticos e estabilidade regulatória poderia transformar a Argentina em um polo de exportação e produção industrial voltado às novas cadeias globais.
Além das indústrias tradicionais, Milei incluiu na equação atividades digitais intensivas em energia, como data centers voltados à inteligência artificial, uma aposta que, segundo ele, poderia encontrar na Patagônia condições naturais e energéticas favoráveis.
Se o plano se concretizar, afirmou o presidente, o país poderia substituir ciclos econômicos curtos por um modelo de crescimento sustentado baseado em exportações, investimento privado e novas cadeias industriais ancoradas em um ativo que considera decisivo: energia abundante e barata.

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